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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Cafetinas no Estado de MInas


Sérgio Maggio relata os sonhos perdidos das cafetinas


Ailton Magioli - EM Cultura

O jornalista Sérgio Maggio, de 42 anos, viveu desde momentos de tensão até os de extremo carinho e afetividade ao lado das profissionais do sexo, desde que se decidiu embrenhar no universo da prostituição para escrever um livro sobre o tema. O produto de mais de uma década de trabalho, entre reportagens e pesquisas in loco nas ladeiras de Salvador e cidadezinhas do interior baiano, além de estudos na Universidade de Brasília (UnB), está em Conversas de cafetinas, que ele está lançando pela Arquipélago Editorial.



Além do perfil de oito “donas de casa”, como preferem ser chamadas as cafetinas Gina, Dona Mininha, Juci, Saiana, Andréa, Nini, Fátima e Dona Cabeluda (os nomes são fictícios, naturalmente), Maggio ainda relata o encontro com outras nove prostitutas que, segundo diz, riram, choraram, falaram, esconderam-se, correram, confiaram, desconfiaram, ameaçaram, revelaram, fantasiaram e mentiram durante os encontros. De quebra, o jornalista do Correio Braziliense, que também é dramaturgo, ainda brinda o leitor de seu livro com o texto teatral Cabaré das donzelas inocentes.



“Quando fui fazer as entrevistas, eu estava muito bem norteado no que eu queria: trabalhar o espaço de memória e de diálogo destas mulheres”, revela o jornalista, que não queria fazer o jornalismo investigativo, tão em prática no meio. “Eu tinha colocado para mim que só faria o projeto se houvesse um consenso entre elas em aparecer olho no olho e contar absolutamente tudo que vinha na memória delas. Mesmo sabendo que essa memória subjetiva vinha com um certo grau de fantasia”, relata Sérgio Maggio.



Triângulo “Era uma proposta arriscada, por elas estarem na contravenção”, acrescenta o jornalista. Por organizar e lucrar com o sexo, as cafetinas estão fora da lei. Como a relação mulher com mulher era muito mais rica, ele escolheu as denominadas cafetinas, que vivem um verdadeiro “triângulo”: relacionam-se com as mulheres submissas a elas, ao mesmo tempo que desenvolveriam uma relação maternal e cobram obediência e rigor no atendimento aos clientes. “Se a prostituta maltrata o cliente, ele rompe a relação com a casa”, descreve Sérgio Maggio, que durante o trabalho chegou a cruzar com Gabriela Leite, em Salvador, onde estava sendo criada a Associação de Prostituição da Bahia (Aprosba).



A tensão inicial diante do desconhecido, de acordo com o jornalista, foi vencida pela convivência instalada entre ele e as profissionais do sexo, com as quais ele acabou saindo, bebendo e dançando. “Eu me relacionei muito com elas em mesas de bar, principalmente. Gastei muita grana com cerveja e cigarro, que eu não fumava e passei a fumar, criando uma relação imediata com elas à medida que fui me desmontando. É um ambiente que realmente flerta com vários tipos de marginalidade, mas ao mesmo tempo é um espaço em que elas estão presas entre si”, conclui Sérgio Maggio, reconhecidamente enriquecido depois do livro.

Um comentário:

ANtonio Rios disse...

Nossa, as cafetinas invadem o país num trabalho digno de verdade