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domingo, 1 de março de 2009

Cafetinas no Portal Imprensa

Jornalista Sérgio Maggio buscou mostrar "humanidade" de cafetinas em livro-reportagem

Por Ana Luiza Moulatlet/Redação Portal IMPRENSA

Por seis meses, o jornalista, crítico teatral e dramaturgo Sérgio Maggio percorreu as ladeiras de Salvador e cidadezinhas do interior baiano para recolher histórias de dezessete cafetinas. Escrito inicialmente para a conclusão do curso de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, o livro-reportagem narra a história de oito dessas mulheres: Saiana, Minininha, Cabeluda, Juci, Nini, Andréa, Fátima e Gina.
Subeditor de Cultura do jornal Correio Braziliense, Maggio diz que no livro - lançado pela editora Arquipélago - buscou "encontrar uma humanidade nessas mulheres, que estão num universo perigoso. A prostituição flerta com a marginalidade, o crime, as drogas e a face mais nefasta, a captação de menores. Diante delas, quis encontrar a mulher, a mãe, a filha, outras facetas que compõem a vida de cafetina".

Portal IMPRENSA - O livro "Conversas de Cafetinas" traz histórias de uma reportagem feita durante seis meses pelos bordéis das cidades baianas. Essa reportagem foi inicialmente feita para ser publicada no jornal?
Sérgio Maggio - Não. O projeto nasceu como proposta de um livro-reportagem sobre as cafetinas para a conclusão do curso de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Executei o projeto, apresentei à banca, que indicou para publicação. Naquele momento, estava com muito cuidado com este material porque, quando fiz as entrevistas com as cafetinas, tinha dito que o fim era acadêmico, sem publicação. Achei que poderia ser algo oportunista. Então, guardei o projeto na mala e fui morar em Brasília. Tudo parecia ainda muito forte na minha cabeça. Em 2003/04, voltei ao tema da prostituição numa pós-graduação da Universidade de Brasília, agora estudando a relação entre as prostitutas de rua e o Setor Hoteleiro Sul. Levei mais um ano labutando com a prostituição. De novo, apresentei a monografia à banca e surgiu outra indicação para publicação. Mas não era a hora. Havia muitas narrativas dentro de mim quando resolvi transformar tudo isso num texto para teatro, o "Cabaré das Donzelas Inocentes", que finalizei em 2008 e é uma ponte entre as vivências da Bahia e Brasília. Portanto, este livro é um projeto de vida de 11 anos, que foi se configurando no tempo. Começou com os perfis e terminou com o texto teatral, que acaba de ganhar o edital do CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), um dos mais concorridos do país, e será montado ainda neste ano em Brasília.

IMPRENSA - Você precisou mudar algo no texto e na apuração por conta da mudança de formato?
Maggio - Não houve mudanças significativas em relação à primeira parte do livro. Os oito perfis que compõem a parte jornalística estão com poucas modificações. Ouvi de novo todas as fitas e acrescentei algumas falas. Mexi em algumas estruturas de texto, mas nada substancial. Ano passado, voltei também à Ladeira da Montanha para saber se algo tinha se alterado na relação das casas com a zona. Lá, elas continuavam sob a expectativa da desapropriação do casario exatamente como eu encontrei antes. Os programas, que antes eram da ordem de R$ 10, agora, chegavam a R$ 20, R$ 25. Ou seja, continuavam na mesma faixa de miséria. Fiz algumas notas de rodapé. Fui também em Nazaré das Farinhas, saber se Saiana tinha conseguido reabrir o seu cabaré. Infelizmente, ela estava morta. Os perfis nasceram humanistas e, nesse sentido, estavam bem vivos.

IMPRENSA - Como você escolheu as cafetinas e a Bahia para realizar esta obra?
Maggio - A Bahia surgiu naturalmente. Morava aqui, na terra das grandes cafetinas dos romances de Jorge Amado. Quando criança assistia à novela Gabriela, com cumplicidade do meu pai, debaixo da mesa (minha mãe queria que eu dormisse cedo, era menino de sete anos). Ali, me fascinei com Maria Machadão, a cafetina do Bataclã, interpretada pela grande atriz Eloísa Mafalda. Jorge Amado ajudou a consagrar a figura da cafetinas nos romances e, posteriormente, nas novelas, Elas surgiam romanceadas, folclorizadas. Em contraponto, na vida real, elas surgiam como mulheres implacáveis nas páginas policiais. Queria então encontrar a cafetina de carne e osso.

IMPRENSA - Quais foram as principais dificuldades na realização desta obra? Que conselhos você daria para profissionais que queiram abordar assuntos delicados como esse?
Maggio - As cafetinas estão na contravenção. No Brasil, se prostituir não é crime, mas organizar e lucrar com a atividade é atividade ilícita. Por que então essas mulheres colocariam a cara a tapa num trabalho em que elas não sabiam ao certo se era confiável? Tive que fazer muito salão para conseguir chegar a alguma mulher. Pegar confiança das meninas. Muitas delas me ajudaram convencendo a sua cafetina a falar comigo. Desde o primeiro momento que cheguei, me identifiquei como um pesquisador em busca de entender quem é esta mulher. Não houve pagamento de nada (a não ser cervejas e cigarros nos bate-papos). Meu espírito não era de entrar ali para violar segredos. Cheguei para ouvir. E me coloquei como um atento observador diante daquelas mulheres, desfazendo abismo entre entrevistador e entrevistado. Consegui ficar diante de 17. Oito aceitaram falar garantindo o anonimato. E foram horas em que elas remexeram com as lembranças, a memória e a subjetividade.

IMPRENSA - Como você considera que este assunto é tratado na imprensa? Você acha que ele é tratado de forma clara e suficiente ou que existe preconceito na mídia?
Maggio - Não posso avaliar isso de forma precisa. Teria que ser feito uma análise qualitativa e quantitativa sobre o tema. Mas intuo que, dentro da objetividade dos jornais, não há muito o que esclarecer sobre as cafetinas. Quando elas aparecem, estão na condição de contraventoras. Ou escravizaram meninas de menor ou organizaram prostíbulos. Nos jornais, não vejo espaço para este foco que foi dado no livro. Busquei encontrar uma humanidade nessas mulheres, que estão num universo perigoso. A prostituição flerta com a marginalidade, o crime, as drogas e a face mais nefasta, a captação de menores. Diante delas, quis encontrar a mulher, a mãe, a filha, outras facetas que compõem a vida de cafetina.

2 comentários:

Honestino Afonso Xavier disse...

interessante seu blogger..

quando der visite o meu

deixe recados..

abraços

Patrícia Del Rey disse...

Parabéns pela entrevista e pelo projeto! Tenho certeza que vai ser algo delicado e belo... Já estou ansiosa pra ver!!! =]

Um beijo