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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Três Meninas de Brasília

Crônica publicada no Correio Braziliense, segunda, 12 de janeiro de 2009
Samambaia, domingo, 11 de janeiro de 2009. Ana Isaura acorda às 9h, corre para ajudar a mãe na cozinha. Hoje,tem frango com quiabo. Enquanto cortam miudinho o vegetal, a garota decora silenciosamente as novas regras do acordo ortográfico. Ela botou na cabeça que passará em concurso público. A manicure acabou de tirar o segundo grau e estuda nos vãos entre as horas de trabalho. De unha em unha, ela corre para a apostila e se esbalda com leis, estatutos e regimentos internos. Desenvolveu até uma técnica: toda vez que está cuidadosamente removendo a cutícula de uma madame, formula uma pergunta. Se acertar, faz o cortec om suavidade. Se errar, dá aquela bicadinha com a ponta do alicate.
— Quando a madame grita, é comose fosse uma alarme para eu reveraquele conteúdo.

Planaltina,domingo, 11 de janeiro de 2009. Ana Firmina passa do horário de levantar. O relógio até que despertou,mas o sono é pesado. Às 5h da manhã, a jovem corre para a cozinha, engole meia xícara de café preto e segue para a esquina. Lá, apanha o ônibus de linha que corta o DF rumo ao Plano Piloto.Acomoda-se na cadeira de cobradora para colher o dinheiro. Na cabeça, não pensa em outra coisa a não ser passar em concurso público. Quando o fluxo de passageiros diminui, empurra as moedinhas para o canto e põe o caderno de anotações com as regras da matemática financeira. No início, enjoava com o balanço da lotação. Agora, está craque no equilíbrio. É capaz de ler capítulos inteiros da Lei Orgânica do DF. Desenvolveu até uma técnica: toda vez que um cidadão cruza a roleta, ela repete mentalmente um artigo da legislação. Assim já decorou quase tudo. O daquele dia era:
— O Poder Público do Distrito Federal dará tratamento favorecido a empresas sediadas em seu território e dispensará a microempresas e empresas de pequeno porte, definidas em lei,tratamento jurídico diferenciado.
Lago Sul, domingo, 11 de janeiro de 2009. Ana Noélia abre os olhos junto com o sol que passa pela janela do quarto.Levanta silenciosamente e vai para a biblioteca da casa. Lá, há um bandeja de sucos, torradas, cremes e geléia esperando por ela. Naquela manhã, a menina não seguiu com a família para a casa de campo em Goiás Velho. Preferiu ficar estudando firme para o concurso público.Não quer mais viver de mesada dos pais. Trocou baladas e viagens por horasde leitura concentrada. Depois, diantede uma câmera digital, grava os tópicos das leis para assisti-los repetidamente.Desenvolveu até uma técnica: registra tudo também em mp3 e segue o dia ouvindo no tempo raro de relaxamento.
— Ontem, passei a aula de spinning assimilando o regimento interno e afunção da mesa-diretora.
Distrito Federal, hoje, 12 de janeiro de 2009. Ana Isaura, Ana Firmina e Ana Noélia sentam lado a lado de sala superlotada no curso preparatório. Elas mal se entreolham. Estão tragadas pela falado professor de direito constitucional.Não têm consciência, mas são as três concorrentes mais bem preparadas para aquele concurso. A prova será em 10 de maio. Fique de olho na lista de aprovados.Apenas uma delas estará entre os 45 novos funcionários públicos do DF.

Um comentário:

Reinaldo Juzzy disse...

Muito cinematográfico, gostei demais da conta só