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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Moléculas de melancolia

Crônica publicada hoje no Correio Braziliense
Sérgio Maggio
Alguns povos místicos acreditam que, quando uma criança é barbarizada, a dor vira faísca de luz que se irradia pelo universo. Essa fração carrega a atmosfera com fluidos pesados. Os bilhões de viventes inspiram aquele ar contaminado. Nos mais sensíveis, essas moléculas de melancolia se convertem numa inexplicável tristeza. Em dias de conflitos bélicos, essa energia fica tão avessa que, mesmo a quilômetros, muita gente é tomada pela angústia que relativiza tudo. Foi assim na Segunda Guerra, quando milhares de meninos e meninas foram maculados em bombardeios e câmaras de gás. É assim agora, ao assistirmos impotentes ao ataque à Faixa de Gaza (mais de 230 crianças foram mortas, segundo a ONU).
Num dia desses, na exata hora em que soldados israelenses negaram ajuda a crianças famintas encontradas ao lado dos corpos mortos das mães, olha o que aconteceu na vida de quatro brasilienses:
1) A socialite Violeta estava a caminho da abertura do calendário social de Brasília. Uma das patronesses de entidade social faria discurso e conclamaria as companheiras a arrecadar recursos para crianças com câncer. Próximo de chegar ao local do encontro, em casa confortável do Lago Sul, pediu ao motorista para parar o carro e teve uma crise de choro compulsiva. Sem condições de prosseguir, voltou pra casa, desligou o celular e dormiu até o dia seguinte.
2) O estudante Demison resolveu renovar o guarda-roupa aproveitando a liquidação de verão. Saiu cedo do trabalho, demorou 40 minutos para estacionar, entrou numa loja de departamentos, experimentou 12 peças no provador masculino, pegou uma fila de 50 pessoas e desistiu da compra na boca do caixa. Abandonou tudo e voltou correndo pra casa, onde passou a noite em claro, numa insônia sem aparente explicação.
3) A arte-educadora Beré, que trabalha com crianças de rua, não via a hora de pegar o avião rumo às esperadas férias no Rio de Janeiro. Passaria o mês de janeiro em Copacabana, na casa de uma amiga produtora de teatro. O voo estava atrasado em meia hora quando a professora foi tomada por uma agonia sem origem. Teve um impulso, comunicou a desistência da viagem, saiu da sala de embarque, resgatou a bagagem e seguiu para o Templo da LBV, onde cumpriu o ritual do espiral de luz.
4) O mecânico Bebeto resolveu comemorar o aniversário no Beirute da 109 Sul. Passou torpedo para os amigos, mandou recados por e-mails e pelo Orkut. Pediu para reservar mesa imensa para 65 lugares na área externa da brita e encomendou uma torta de chocolate com recheio de damascos. Estava no Eixinho, próximo de pegar a tesourinha, quando foi tomado por sentimento que amarrou o coração. Colocou o celular no silencioso e ficou parado uma hora dentro do carro. Ao ganhar coragem, ligou para o melhor amigo e pediu que inventasse uma desculpa qualquer.
Será que Violeta, Demison, Beré e Bebeto sabem dessa teoria mística da molécula da melancolia? E você, leitor? Ou tudo isso não passa de histórias isoladas e sem conexões saídas da cabeça deste cronista? Eu não sei de nada. Nessa hora, apego-me à frase de Shakespeare: “Existem mais mistérios entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia.”

Um comentário:

Nanan disse...

Precisamos divulgar coisas como esta. Vou copiar e passar em rede. Bjs