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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

DÁ UMA SAUDADE NA GENTE…

Crônica publicada no Correio Braziliense dia 6 de janeiro de 2009
Nascida em março de 1927, em Nazaré das Farinhas (BA), dona Ester passa este janeiro chuvoso em Brasília.Veio rever o filho, apartado delapelo trabalho. Aqui na cidade, aproveita para engrossar o número de turistas que movimentam os monumentos e marcos da construção da capital. No domingo, ela pegou a estradar umo ao Catetinho (lá, próximo doGama). No longo caminho do Sudoeste ao Palácio de Tábuas, queixou-se do que pode: da lonjura do museu ao cansaço das pernas. Aos 81 anos, ela preferia passar aquela tarde esparramadana cama, com os olhos entre o cochilo e o velho programa do Silvio Santos. Bastou, no entanto, ficar diante da primeira residência oficial do então presidente Juscelino Kubitschek para a senhora se encher de vitalidade arrebatadora.
Diante da construção de 1956, ela apressou o passo e rumou para a primeira placa explicativa. Em voz alta, bem alta, passou a ler o texto com narrativa embargada de orgulho. Emendava uma leitura na outra. Em cada cômodo que entrava, seguia a cantilena,por vezes, pontuada de comentários.
Lia: — A casa, um exemplo da arquitetura dos anos 1950, tem seu primeiro piso suspenso por pilotis.
E retrucava: — Meu Deus, é preciso ter muita cabeça para fazer um negócio desse.
Lia mais: — Em mesas de tábuas, era servido o almoço, e o presidente JK sentava ao lado dos operários.
E retrucava mais: — Tá vendo, elee ra um homem simples, comia ao lado do povo.
Numa espécie de leitura dramática, a história do Catetinho foi surgindo viva ao redor da fala de dona Ester.Quando ela entrou na cozinha e começou a desatar o palavrório, juro que vi a cozinheira Germita Tavares surgir poderosa diante do forno de lenha.Ali, preparava as iguarias mineiras que seduziam JK, como a galinha ao molho pardo. Passou por mim também o mordomo Osório. Cuidadoso,parecia checar se tudo estava em ordem na casa para receber os visitantes daquele final de semana.
— Ai meu Deus, bate uma saudade,despedia-se dona Ester de cada cômodo.
Quando soube que havia, no primeiro andar, o quarto do casal Juscelino e dona Sarah, dona Ester ficou atiçada.Subiu depressa a escada, mas esbarrou com outras três mulheres curiosas, rondando o aposento. Fez cara de abusada,mas conformou-se em correr os cômodos dos hóspedes e, claro, ler em voz alta placa a placa.
— Que coragem desse homem emconstruir a capital no meio do mato. É muita história… Ai meu Deus, bate uma saudade na gente, clamou antes de chegar ao quarto do casal.
Ali, o pijama cor-de-rosa e o chapéude JK encheram dona Ester mais ainda de nostalgia. Havia tanta emoção extravasada,que restou a ela dividir o sentimento com uma jovem que esperava a senhora acabar de ler a placa para entrar no recinto.
— Ah minha filha, dá uma saudade na gente…
— Em mim nem tanto, porque eu não conheci JK, observou a moça.
— Nem eu minha filha, mas a saudadeé muita….

Um comentário:

maninha disse...

Adorei que poético