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sábado, 25 de outubro de 2008

Círculo macabro



Lendo sobre as baixarias nas eleições de SP, memória Ram abriu-se e veio essa crônica de minha autoria, publicada 13 de julho de 2006, no Correio Braziliense.

Três histórias recentes me perturbam. Não foram noticiadas pelos jornais, pertencem ao âmbito da vida corriqueira. Fui testemunha acidental das duas primeiras. A outra, estava de corpo presente. Em comum, elas me deixaram em estado de silêncio, aquele em que as palavras ficam no meio do caminho. Até pouco tempo, não conseguia entrelaçá-las, apesar de todas terem como mote o preconceito em sua natureza mais cruel. Até que encontrei a peça mais difícil do quebra-cabeça. A cadeia se fechou. Na ordem dos acontecimentos:


Caso 1 – Noite de sexta-feira em supermercado chique do Sudoeste. Cinco garotos que há pouco atingiram a permissão para badalar nas madrugadas compram bebidas alcoólicas. Estampam felicidade. Brincam, riem, tagarelam. Um deles, o mais falante, encontra à venda um guia da Copa do Mundo. Na capa, Ronaldinho Gaúcho estampado, em close e de torso nu. Com olhar auspicioso, o rapaz dirige-se ao grupo. “Olha só! Vejam que chimpanzé. Ninguém merece!” Todos gargalham em cumplicidade.

Caso 2 – Noite de quinta-feira em tradicional bar da Asa Sul. Numa mesa, amigo gay apresenta um rapaz branco a um mulato também gay. Os três travam conversa animada que dura pouco mais que 10 minutos. Em aparente desacordo de opiniões, o rapaz branco se levanta de súbito e vai em direção à quadra comercial. Exaltado, o mulato aumenta o tom de voz. “Bando de nordestinos. Comia calango assado no sertão antes de vir para Brasília. Agora que chegou aqui, faz pose de gente.”


Caso 3 – Tarde de um dia qualquer da semana em café do Sudoeste. Encontro a revista do Ronaldinho Gaúcho na prateleira. Mostro o exemplar a grupo de caros amigos. À mesa, uma única estranha, que veio de Fortaleza (importante capital nordestina). Ela reage subitamente. “Vamos concordar que essa foto comprova a teoria de que evoluímos mesmo dos macacos.”


O preconceito se fechou em círculo macabro. Dos meninos de classe média ao negro famoso. Do quase negro gay de classe média ao nordestino. Da mulher nordestina de classe média ao mesmo negro famoso. Muitas minorias envolvidas, todas historicamente oprimidas. Uma desrespeitando a outra, num salve-se quem puder, numa selva de pedra. Como as palavras sumiram de novo, então que atire a primeira pedra aquele que não tem preconceitos!

2 comentários:

Fernando Elser disse...

O preconceito em cadeia, tudo mundo discrimina todo mundo. É a pobreza do homem

Cris Many disse...

Com quantas atrocidades se constroem o homem? Fico chocada com todas essas cenas... Meu Deus, orai por nós