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domingo, 21 de outubro de 2007

Mais pontos altos que baixos

Cenários que são, em verdade, instalações já se tornaram uma “marca registrada” dos espetáculos concebidos e realizados pelos irmãos Adriano e Fernando Guimarães. A ligação com as artes plásticas sempre esteve presente e é um dos elementos centrais no conceito da dupla. Assim, palco preenchido por poucos e muito bem-acabados objetos, figurinos elaboradíssimos e cada cena concebida como se buscasse produzir uma fotografia satisfazem o anseio de quem deseja apreciar um espetáculo belo.
Sonhos de uma Noite de Verão, adaptada pelos diretores e transposta para o sertão nordestino, atende a todos esses requisitos. O palco nu tem todas as paredes decoradas por uma infinidade de santinhos, altares, flores, fitas, papel de parede, numa profusão harmoniosa de cores e volumes. Elementos de igrejinhas e de casas simples foram, ali, tornados fashions. E, como objetos cenográficos manipulados pelos atores para diversos fins, guarda-chuvas coloridos decorados com rendas.

Foto: Sérgio Martins/Divulgação


O espetáculo ainda oferece mais: talvez o sotaque nordestino, familiar ao brasileiro médio, e a simplificação de muitas falas, tenha tornado mais acessíveis os desencontros, inversões, disfarces e erros que caracterizam os mecanismos do cômico. A atuação do elenco, regular, permite despontar, em um momento ou outro, atrizes com carisma superior. A criatura Puck sofre desdobramento, sendo interpretada por dois atores-acrobatas. Ao mesmo tempo, outros intérpretes revezam-se no curingamento dos demais personagens. E um músico irrompe na passagem de alguns episódios, evocando os repentistas e tornando mais rica a encenação.
Apesar da competência, falta a Sonhos... algum brilho. Recursos fáceis, como a inserção de músicas bregas compondo cenas de besteirol, entradas e saídas de palco comprometidas pela própria estrutura imposta pelo teatro escolhido, e um nicho reservado à rainha Titânia com uma simples rede que não a acomoda bem junto a seu amante, sugerem resoluções ineficientes. O desaparecimento de personagens por detrás dos guarda-chuvas, que a partir de certa altura permanecem enfileirados no fundo do palco, surpreendem, mas logo torna-se desinteressante. A postura construída para alguns personagens, sobretudo Oberon, precisarão se tornar mais orgânicas, naturais, confortáveis para os atores. Titânia brilha, belíssima e sedutora; mas a troupe que se esconde na floresta para ensaiar uma peça peca, pela caricatura excessiva. De uma fábula povoada de elfos, fadas, amantes desenganados, feitiços, não se pretende verossimilhança, “fidelidade” alguma à realidade circundante; mas, ao transpô-la para uma região brasileira, e atualizá-la, é preciso lembrar que personagens contemporâneos, como coreanos sobrecarregados de bugigangas, infestam os centros maiores, não o sertão; matutos excessivamente ingênuos dificilmente comporiam o grupo de um diretor histérico; outra integrante não pareceria tão imersa em “topor” a ponto de quase não conseguir falar – apesar de o carisma da atriz ter conquistado a platéia e, muitas vezes, roubado a cena.
Essas pequenas irregularidades, comparadas ao apuro técnico geral, comprometem a nova obra, quando posta em comparação com a seqüência brilhante de últimas realizações dos diretores. Nada que pequenos ajustes não possam sanar. Ainda assim, a presença do expectador é recomendada; poucas montagens tornaram Sonhos de uma Noite de Verão tão inteligível para o grande público.

4 comentários:

cesar jeansen disse...

Bem. para mim que não vi a peça e provavlemente não verei é difícil comentar tudo. Mas só farei algumas observações a algumas coisas levantadas no texto (se a autora puder me responder depois...). Algo que me preocupa é essa coisas de usar o tal "conhecido" sotaque nordestino. Vamos colocar nas palavras da autora:O espetáculo ainda oferece mais: "talvez o sotaque nordestino, familiar ao brasileiro médio". Bem, não existe um sotaque nordestino; existem vários. Essa idéia de homogeineidade do "nordestinês" é uma invenção das novelas globais(especialmente"!)que teimam em macaquear os nordestinos como uma figura única, retirante e estúpida como fizeram na Europa com os seus para o qual denominaram "clods" que posteriormente veio a se transformar em clwons como colocam alguns autores. Claro que aí em Brazília se conhece muito do Nordeste, eu sei; pois a época de sua construção foi especialmente daqui que saiu a mão de obra para lvantar o concreto da sua cidade (que claro, pelo menos pelas fotos que vejo, é belíssima!).Mas é importante atentar a esses rótulos. Explico-me. Por que não criticar o fato dos diretores não terem definido uma cidade específica, um lugar específico daqui da região e lá feito o estudo do seu sotaque para tentar transportá-lo para o palco; creio que ser mais coerente. Não me entenda mal, por favor, pois ao criticá-la estou também criticando o diretor: foi um erro crasso. Fiquei em dúvidas quanto a um outro termo usado "caipira", aqui no NE não há caipiras, caipira denomina um outro nicho cultural que pega Goiás, Minas, Mato-Grosso e o do Sul, e São Paulo; no NE, popularmente chamanos matuto, culinária matuta, festas matutas, etc. Afora esses particulares, aprecieie muito o seu texto, ele é bem detalhista nos dando muito do que tem a peça, permitido-nos uma visão bem ampla dos seus elementos simbólicos.

Bem,quanto a me responder, deixo aqui meu e-mail, se eu esticer errado e você poder me corrigir, ou não, enfim . vinte.molas@gmail.com

Anônimo disse...

A técnica que os atores que interpretam os Pucks lançam mão em sua atuação ao que me consta é a de acrobacia e não malabarismo.
Quanto ao grupo de teatro ser caricato ao ponto de contar com uma integrante de fala muito lenta, um diretor histérico e uma coreana cheia de bugingagngas(figura comum sim que já invadiu até mesmo em feiras tradicionais nordestinas) me parece que além do próprio texto escrito por Shakespeare para esses personagens(que mostra o quão toscos e caricatos eles são) ainda existe no original um texto do personagem Filostrato dito a Teseu que ao contra indicar a escolha daquela peça para o casamento, discreve muito bem as caracteristcas do tal grupo de teatro.
No mais, gosto do seu comentario!

SheilaCampos disse...

Agradeço a todas as observações! Pertinentes e super bem argüidas! Corrigirei quanto à técnica dos atores que interpretam Puck; de fato, são acrobatas.
Quanto ao "sotaque nordestino", generalizado do modo que empreguei, explico: acho que acabamos por nos acostumar com um certo "acento", ritmo, que não chega a ser a caricatura grotesca da globo mas que, imediatamente, nos remete àquelas paragens... Concordo que são múltiplos os sotaques, como também são os do sul, os do centro-oeste... Mas acabamos por lançar mão de certos "traços" para evocar a região desejada. É, de fato, um erro esse não aprofundamento e a generalização; mas a platéia responde de forma imediata.
Aos dois, agradeço a apreciação do meu texto! Trabalharemos sempre para melhorar as análises mais e mais! Grande abraço e espero que tenhamos novos encontros!

shirley santos disse...

Soube que esse espetáculo é uma gritaria geral, meio zorra total.