terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Os intelectuais estão surdos>



Sérgio Maggio



O Big Brother Brasil 10 mal tinha entrado no ar, quando o noticiário nacional estampou: “Tem uma intelectual na casa do BBB”. A confinada em questão era uma brasiliense, doutoranda em linguística e ex-professora da Universidade de Brasília (UnB). Dona de respeitável currículo lates, é também DJ nas horas vagas e fundadora de comunidade virtual contra a homofobia. Nos últimos dias, fui dar uma espiadela no faro da “produção de pensamento” de Elenita ou Lena, como é chamada, na intimidade, pelos brothers. Logo no primeiro minuto, Elenita aparece num bate-boca com uma companheira. Os motivos parecem inexplicáveis e fúteis. Ficam no campo da disputa feminina por espaço, algo que parece ocupar bastante a cabeça da sister.

— Eu sempre escuto na balada, o carinha fica jogando papinho. Se eu não dou bola, ouço que sou gorda ou lésbica, contava, na sala de jogos.

Sem querer julgar o que uma mulher com pretensão ao doutorado faz num jogo que tem o dom de expor e amplificar o patético do ser humano, Elenita definitivamente está longe de ser uma intelectual. Há muito, aliás, partiu-se o vínculo entre “aquele que produz criticamente o pensamento” e o espaço de formação do saber universitário. Horas de estudo são gastas anualmente para entender o fenômeno do “fim dos intelectuais” e a raridade de reflexão capaz de alterar a forma de repensar o senso comum. Há quem atrele esse esvaziamento ao fim das “revoluções”, das utopias.

— Intelectual é quem vincula um trabalho de análise a uma preocupação cidadã. De contrário, é um especialista, pontua Pierre Rosanvallon, historiador e professor do Collège de France.

O tema é complexo, mas o professor francês aponta o caminho, já que parte das universidades preocupa-se em formar especialistas, num ambiente que, por vezes, aproxima-se mais das benesses do corpo. Não é novidade que alguns centros acadêmicos estão mais preocupados em promover festas do que manifestações políticas ou debates. A trilha sonora parece ser sintomática. Dizem por aí que as preferidas dos universitários brasileiros vêm do forró, sertanejo, axé e pop grudento. Todas canções com menos de três acordes. Elenita não tem culpa. Os intelectuais estão isolados e surdos em seus gabinetes.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Teatro-Oficina

Casos e Acasos - Teatro da Escola Parque 313/314 sul, quinta, dia 28, às 21h. Com: Eric Camargo, Lina Pereira, Jéssica Rodrigues e outros. Direção: Jones Schneider. Histórias bem humoradas do cotidiano de cada um. Ingressos: R$ 6,00 e R$ 3,00 (meia). Não recomendado para menores de 12 anos.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Oitentinhas


-->Sérgio Maggio



Assim que saiu do hospital, a apresentadora Hebe Camargo encheu os telejornais de vida e determinou diante da luta contra o câncer:

— Quero chegar bem aos 100 anos!

Felizmente, o desejo de Hebe não é uma piada. As mulheres estão em plenitude, conseguindo viver mais, em que pesem o risco da secular e brutal violência masculina e a dupla jornada de trabalhadora remunerada e dona de casa. Hebe atingiu os 80 como todo mundo sabe: cheia de sonhos.

No país, as oitentinhas mais famosas deixam a gente boquiaberta com a mescla de maturidade, inteligência, beleza e determinação. Só no teatro, cinema e televisão, temos algumas deslumbrantes. Fernanda Montenegro, Nathália Timberg, Tônia Carrero, Bibi Ferreira e Laura Cardoso, por exemplo. Todas grandes damas oriundas dos palcos. Cleyde Yáconis, daquelas intérpretes de arrepiar a alma do espectador, enfrenta o ritmo industrial das novelas ainda neste ano, como uma das estrelas de Passione, próxima trama das nove, de Silvio de Abreu.

Há ainda a crítica teatral Bárbara Heliodora. Com o olhar afiado e a memória do teatro brasileiro na cabeça, ela é capaz de acionar os neurônios em segundos para falar dessa maravilha que é a saga das artes cênicas no país. E o que dizer de Angela Maria, nossa Sapoti. Vi uma entrevista dela no Sem censura, da sessentinha Leda Nagle, e fiquei extasiado. Ao falar por que o povo pede tanto para cantar Babalu, ela respondeu de pronto.


— É uma música muito difícil de cantar. Querem saber se ainda dou conta, gargalha.

Na minha vida, tem uma oitentinha, dona Ester, minha mãe, que parece descobrir o mundo novo a cada dia. Espoleta, divide o tempo na arte de administrar o reinado matriarcal, tão típico do Nordeste. Fora isso, sempre que pode corre ao médico. Se aparece uma verruga, marca um dermatologista. Se surge uma dorzinha qualquer, corre ao clínico. O cuidado com a saúde parece ser o segredo das mulheres que brilham aos 80. Não à toa, uma campanha do Ministério da Saúde alerta: “Os homens brasileiros morrem mais cedo e as mulheres vivem sete anos a mais”. Vamos aprender com elas.

Este artigo é dedicado a Marie Carida Roman, haitiana de 84 anos, que foi retirada dos escombros 10 dias depois do terremoto. --> --> --> --> -->

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

NIILISTA MEDROSO

Em memória ao poeta Ariosto Teixeira, que partiu ontem

Às vezes você se pergunta
Olhando o rosto no espelho
Se o reflexo é verdadeiro
Ou se a verdade é o corpo
Parado no meio do banheiro

Você acha que sabe bem o que é
Você acha que sabe bem o que quer
Você acha que sabe quem você é

Mas você sente medo
Medo de não ser você no espelho
Medo de ser mero reflexo
Do outro que consigo parece

Você não tem medo de sexo
Você gosta de sexo
Você sonha com sexo
Você procura fazer muito sexo

Sexo à distância
Sem beijo sem fluido
Higiênico e sem lirismo
Seguro como sexo com prostituta
Você de frente ela de costas
Ela por cima de costas
Você por baixo de costas deitado

É que você tem medo
Do ataque de um vírus complexo
Medo de gravidez
Medo de se apaixonar irremediavelmente
Medo de perder o controle
Medo de assumir o controle
Medo de que tudo enfim faça nexo

Você acende e apaga o cigarro
Com medo de pegar câncer de pulmão
Medo de apagar a luz
Medo de acender a luz
Medo de desligar o alarme
Medo de abrir o portão
Medo de ladrão policial pivete
Medo de colisão
De atropelamento
De ataque do coração

Medo de padre
Da certeza cristã absoluta
Da democracia liberal
Da esquerda latina
Medo da nova direita francesa
Medo do presidente americano
Medo da falta de medo do terrorista muçulmano
Medo de ser fragmentado por um raio da Al Qaeda

Medo da China capitalista
De milho transgênico
De buraco negro
De carne vermelha
Medo da falta de limite da física quântica
Do aquecimento global
Da inteligência artificial
De velocidade acima do permitido
De remédio de quinta geração
Da globalização
Do fim da globalização
Da falta de sentido

Medo de que Deus provavelmente não exista
De não haver outra vida
Você tem medo de ficar sozinho
Sem ninguém nem final feliz

Ah mas você confia no amor
O terno e doce amor
Do homem pela mulher
Do homem por outro homem
Da mulher por outra mulher
Do homem pelos animais
Da humanidade pela natureza
Você confia no amor das criancinhas

Você pensa nessas coisas
E por um instante
Acha que nada está perdido
Que o amor salvará o mundo
O amor romântico como no cinema
Como em um soneto de Shakespeare
Apesar da podridão no reino terrestre

Mas quanto tempo dura o amor
Antes de se dissolver em tédio
15 minutos uma tarde inteira uma noitada?

Você odeia sentir isso assim tão sentimentalmente
Mas é impossível ser de outro modo
É preciso agarrar-se a algo
Não ter medo de que o vazio
Tenha se espalhado em todos os quadrantes

O fato indiscutível é que você tem medo
Medo muito medo
De ficar vivo durante o inverno nuclear

Você principalmente tem medo
Do que um dia vai fazer
Quando ao anoitecer
O seu rosto tiver desaparecido do espelho do banheiro

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Caetano me ajude


Tenho passagem marcada para Salvador em plena folia. Mas confesso estou descarnavalizado. Não sei se tenho alegria genuina para me diluir na multidão enquanto o mundo se desmancha em catastrófes Não se trata de sensibilidade exarcebada. É mesmo esse fio global que atou a todos. O Haiti que se dissolve aparece à minha frente como se fosse a vista da janela de casa. Outro dia, veio, no toque da mensagem no celular, o anúncio do segundo terremoto. Está em Brasília tem um agravante: essa sensação de nocaute, com tanta corrupção e sensação de impunidade. Ainda tem o Brasil e suas cidades que se afogam em enchentes Mas soube que na Bahia tem o Rebolation, que ótima fumaça para estancar as dores. Será que fumo o Rebolation e vou atrás do trio?
Não sei... Eu peço ajuda ao Caetano...