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Sérgio Maggio
O Big Brother Brasil 10 mal tinha entrado no ar, quando o noticiário nacional estampou: “Tem uma intelectual na casa do BBB”. A confinada em questão era uma brasiliense, doutoranda em linguística e ex-professora da Universidade de Brasília (UnB). Dona de respeitável currículo lates, é também DJ nas horas vagas e fundadora de comunidade virtual contra a homofobia. Nos últimos dias, fui dar uma espiadela no faro da “produção de pensamento” de Elenita ou Lena, como é chamada, na intimidade, pelos brothers. Logo no primeiro minuto, Elenita aparece num bate-boca com uma companheira. Os motivos parecem inexplicáveis e fúteis. Ficam no campo da disputa feminina por espaço, algo que parece ocupar bastante a cabeça da sister.
— Eu sempre escuto na balada, o carinha fica jogando papinho. Se eu não dou bola, ouço que sou gorda ou lésbica, contava, na sala de jogos.
Sem querer julgar o que uma mulher com pretensão ao doutorado faz num jogo que tem o dom de expor e amplificar o patético do ser humano, Elenita definitivamente está longe de ser uma intelectual. Há muito, aliás, partiu-se o vínculo entre “aquele que produz criticamente o pensamento” e o espaço de formação do saber universitário. Horas de estudo são gastas anualmente para entender o fenômeno do “fim dos intelectuais” e a raridade de reflexão capaz de alterar a forma de repensar o senso comum. Há quem atrele esse esvaziamento ao fim das “revoluções”, das utopias.
— Intelectual é quem vincula um trabalho de análise a uma preocupação cidadã. De contrário, é um especialista, pontua Pierre Rosanvallon, historiador e professor do Collège de France.
O tema é complexo, mas o professor francês aponta o caminho, já que parte das universidades preocupa-se em formar especialistas, num ambiente que, por vezes, aproxima-se mais das benesses do corpo. Não é novidade que alguns centros acadêmicos estão mais preocupados em promover festas do que manifestações políticas ou debates. A trilha sonora parece ser sintomática. Dizem por aí que as preferidas dos universitários brasileiros vêm do forró, sertanejo, axé e pop grudento. Todas canções com menos de três acordes. Elenita não tem culpa. Os intelectuais estão isolados e surdos em seus gabinetes.

