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terça-feira, 16 de junho de 2015

Odair José lança clipe A Moça e o Velho do CD DIA 16

Jones de Abreu, Marina Trindade, Gabriela Correa e Gilberto Marmoroush


Luiz Felipe Ferreira, Rodrigo Marmore Marina Trindade, Tainá Baldez, Camila Guerra e Jones de Abreu





Inspirado no cinema mudo, curta musical é lançado no dia 16 de junho no YouTube
Bem acolhido pelo público e pela crítica especializada, Dia 16, o 35◦ disco de inéditas de Odair José (da Saravá Discos, de Zeca Baleiro), ganha o primeiro clipe. No melhor estilo música-crônica, que consagrou o cantor e compositor goiano, A Moça e o Velho está na plataforma do YouTube, a partir do dia 16 de junho (clique aqui). A canção é uma deliciosa leitura crítica sobre a relação afetiva entre pessoas de gerações diferentes, ainda severamente crucificada pelo juízo de valor da sociedade conservadora.
A Moça e o Velho é uma reportagem musical, crônica daquilo que vejo nas minhas leituras do cotidiano. Mas é também a minha vontade, como compositor, de chamar atenção das pessoas pra uma discussão sobre o olhar preconceituoso da sociedade, que teima em existir em pleno século 21”, aponta Odair José.
O clipe é protagonizado pela atriz brasiliense Gabriela Corrêa (escolhida por Odair), que faz o papel da Moça, e pelo ator carioca Gilberto Marmoroush (especialmente convidado para a produção), que interpreta o Velho. Participam ainda os atores Jones de Abreu, Camila Guerra, Marina Trindade, Tainá Baldez, Rodrigo Mármore e Luiz Felipe Correa. A maioria faz parte do elenco do musical Eu vou tirar você deste lugar – As canções de Odair José, de Sérgio Maggio, que já foi visto por 15 mil espectadores em quatro capitais (Brasília, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro), com sucesso de público e crítica.
Com produção da Cabaré Filmes Produções Culturais, direção de Dannon Lacerda e roteiro de Sérgio Maggio, o clipe foi rodado nos jardins do Museu da República (RJ). Sugerida por Odair José, a linguagem do clipe se aproxima de um curta-metragem, sem a tradicional aparição do cantor, e remetendo-se ao filmes mudos P&B, das primeiras décadas do século 20.

FICHA TÉCNICA:
Música: A Moça e o Velho
Compositor e cantor: Odair José
Álbum: Dia 16
Direção: Dannon Lacerda
Roteiro: Sérgio Maggio
Elenco: Gabriela Corrêa, Gilberto Marmoroush, Jones de Abreu, Camila Guerra, Marina Trindade, Tainá Baldez, Rodrigo Mármore e Luiz Felipe Correa.
E as crianças: Ana Luiza, João Guilherme e Pedro Luca Marcondes
Fotografia: José Amarilio Jr.
Still: Juliana Marcondes
Edição: Lucas Imbiriba
Design Gráfico: Luxdev
Produtores: Demétrio Rodrigues, Marina Trindade e Sérgio Maggio.
Direção de Produção: Cabaré Filmes e Produções Culturais
Agradecimentos: Museu da República, Magaly Cabral, Jurema Marcondes Criaturas Alaranjadas Cia. de Teatro e Signorinimkt Produções.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS:
Musical Eu vou tirar você deste lugar – As canções de Odair José www.facebook.com/odairjosemusical



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A crítica da crítica, por que não?

Sou cria do exercício crítico. Me alimento dele e acho que todo artista deve atentar ao que dialoga e realimenta. Hoje, recebemos uma crítica de Gustavo Fioratti (Folha de S. Paulo), que antes de tudo, é quase um editorial contra o teatro musical brasileiro ao qual ele chama de “esse lugar estranho que se chama falta de assunto”. É como se o "objeto em si a ser criticado, no caso do espetáculo" seja um mote para que o cenário seja atacado. Como uma das funções da crítica é de realimentar o debate, seguem as minhas inquietações:


São Paulo, 12 de dezembro de 2014

A crítica da crítica, por que não?


Caro, Gustavo Fioratti

Li com atenção a sua crítica Peça com canções de Odair José provoca tédio ao apostar em fórmula esgotada. Por acreditar que uma das funções do pensamento crítico é de retroalimentar a discussão e o debate, resolvi dialogar com as premissas que a sua resenha propõe aos artistas que integram o processo de construção do musical Eu vou tirar você deste lugar – As canções de Odair José.
É muito interessante quando você usa o termo “paradoxo” para qualificar o resultado da materialidade que você presenciou na sessão da última segunda-feira, 8 de dezembro de 2014. Noite, aliás, em que a plateia vibrou cena a cena e comportou-se como se estivesse diante de uma potente encenação, na qual “o tédio” não poderia ser nunca um adjetivo capaz de qualificá-la. É claro que você, na condição de mediador, pode se impor e ser contra ao sentimento de deleite de uma maioria, levando em conta que, provavelmente, como você presume no texto, seja formada de “espectadores que não viram outras peças do gênero”.
O termo “paradoxo” nutre toda a matriz de sua análise, que, agora, serve como um objeto passível de crítica. A crítica da crítica, por que não? É interessante perceber que, nos quatro primeiros parágrafos do texto, há um posicionamento político de aversão explícita ao movimento do teatro musical brasileiro como gênero, que você considera puramente comercial. Isso evidencia um forte a priori contra o espetáculo, um (pre)conceito que se estabelece antes que se abram as cortinas, sobretudo. Quando o seu texto evoca o gênero musical como “modismo em dose cavalar imposto ao teatro pela indústria cultural”, ele clama por um freio à cena, ou melhor, a “esse lugar estranho que se chama falta de assunto”.
Por esse raciocínio, fica evidente que, de acordo com sua crítica, toda a forma de teatro musicado não é teatro, seria um corpo estranho imposto, como se o cenário teatral não pudesse se alimentar, em sua diversidade, do comercial e do underground de forma salutar. Esse discurso de ataque não é novidade ao teatro musical brasileiro em sua história. O teatro de revista no Brasil, por exemplo, sofreu ao longo de sua existência uma luta ferrenha de ditos intelectuais que se consideravam superiores à sua estética e ao discurso popular, numa velha chave da dicotomia “arte superior” x “arte popular”; “drama” x “comédia”, “Brecht” x “Stanislavski”.
Não quero aqui contestar a sua opinião sobre a escolha formal com a qual dialogamos com Odair José: o jogo farsesco das revistas. Isso para mim seria violar o que considero mais sagrado num contexto subjetivo: a sua opinião. O que me instiga são as sucessivas contradições trazidas em sua crítica. Após o texto sustentar todo o argumento que essa opção farsesca enfraquece o espetáculo e se encontra esgotada, você reitera, em seguida, que “de qualquer forma, as canções de Odair José combinam demais com o tom farsesco.” O que põe em xeque parte do seu pensamento e reforça as nossas escolhas processuais, que se deram de forma compartilhada, para não usar o quase hegemônico e desgastado termo “teatro colaborativo”.
Seguindo o raciocínio do seu texto, em que você diz aqui ou acolá que a montagem é “tecnicamente bem feita e vistosa”, “a banda no centro da cena, assim como os arranjos, também merecem elogios”, “os solos são melhores do que os coros”, fica a sensação de que as suas idiossincrasias sobre o teatro musical foram maiores do que o objeto em análise. Sobretudo, ao final, quando arremata, “talvez não seja justo culpar Eu Vou Tirar Você Desse Lugar por um problema que pertence a um cenário inteiro.”
Talvez, o caso não é esse de parecer justo ou injusto. Fica a evidência que sua crítica reproduz o velho jugo de colocar tudo que dialoga com o popular num extrato inferior do que se aponta como arte. De transformar uma plateia vibrante em tediosos incautos. E aí a montagem sobre As canções de Odair José vira quase um factoide em suas mãos para justificar uma linha editorial firme e pouco generosa que sai dos seus olhos.
É sintomática que a obra musical de Odair José (hoje considerada cult, inclusive por sua crítica como “linda” e “merecedora de atenção”) foi, num passado remoto, destronada pela “crítica oficial” e taxada como “brega”, sempre e eternamente num mau sentido. Sob esse aspecto, meu caro, a sua crítica nos contempla perfeitamente.
Abraços

Sérgio Maggio

Diretor, dramaturgo e mestre em crítica teatral pela UnB

Abaixo a crítica:





CRÍTICA - MUSICAL

Peça com canções de Odair José provoca tédio ao apostar em fórmula esgotada

GUSTAVO FIORATTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Na onda de musicais que resgataram os repertórios de Tim Maia, Chico Buarque, Cássia Eller, Elis Regina, Milton Nascimento, Cazuza, Lupicínio Rodrigues e Rita Lee, chegou a vez do compositor e cantor Odair José ser homenageado em cena.
Para conseguir existir como obra original, "Eu Vou Tirar Você Deste Lugar", em cartaz no CCBB com dramaturgia e direção de Sérgio Maggio, tem então de enfrentar esse modismo em dose cavalar imposto ao teatro pela indústria cultural.
Tecnicamente bem executada e cenicamente vistosa, a montagem acaba enfraquecida nesse lugar estranho chamado falta de assunto.
O resultado é uma espécie de paradoxo, principalmente porque as lindas canções de Odair José, entre elas "Cadê Você", merecem toda a atenção nesse momento em que a nostalgia tornou-se uma fonte de inspiração para o circuito comercial.
O espectador que não viu outras peças do gênero tem mais chance de gostar. Mas quem viu alguns dos trabalhos acima citados corre o risco de ser tomado por uma forte sensação de déjà vu --e de se entediar, no fim das contas.
A peça reproduz um procedimento cênico comum: ela encontra na farsa e na revista um tipo de interpretação que possibilita intercalar canções no corpo da dramaturgia. A farsa trabalha estereótipos, e todas as peças que dela se serviram, juntas nessa onda, formaram um álbum de figurinhas. Tudo ficou meio igual, pasteurizado.
De qualquer forma, as canções de Odair José, bregas no bom sentido e muitas vezes bem-humoradas, combinam demais com o tom farsesco.
Pelo palco, desfilam personagens femininas, figuras de bordéis, uma empregada doméstica, um pai moralista e seu filho que quer ser músico e cair na estrada.
Destacam-se, no elenco, Jones de Abreu e a cantora Watusi, que arrasa no seu timbre parecido com o de Sarah Vaughan. A banda no centro da cena, assim como os arranjos, também merecem elogios. Os solos são melhores do que os coros.
Talvez não seja justo culpar "Eu Vou Tirar Você Desse Lugar" por um problema que pertence a um cenário inteiro. Mas, ao usar neste momento uma combinação à beira do esgotamento, a peça perde parte de sua força.




domingo, 9 de novembro de 2014

Crítica/Trágica.3 - A arte tecida sobre a arte


                                  Fotos de Victor Hugo Cecatto/Divulgação
Miwa Yanagizawa, Denise Del Vecchio e Letícia Sabatella: teatralidade construída no corpo

Letícia Sabatella nos primeiros instantes: conexão com o âmbito das tragédias

Miwa constrói uma Electra de não tirar os olhos



Denise conduz uma Medeia surpreendente

Guilherme Leme Garcia nos ensaios: diretor de qualidade poética

Sérgio Maggio

Os primeiros instantes de Trágica.3 parecem distanciar o espectador do âmbito denso de três das maiores tragédias gregas que chegaram ao nosso conhecimento. O cenário remete à arte geométrica e a trilha, às experimentações sonoras, criando um clima de estranhamento. Ao piano, Letícia Sabatella inicia série de vocalizes que ganham corpo, volume e sentido. De repente, transformam-se num grito agudo, metálico, de dor pungente. O sofrimento épico feminino ecoa no ar. Numa fração de segundos, a moldura contemporânea dilui-se e ficamos ali atados ao fio do tempo que nos une à comiseração das personagens massacradas pelos desatinos familiares. Enquanto Letícia segue numa performance pulsante, o martírio que sai das entranhas dessas mulheres prevalece em cena. É materialidade que nos eleva a uma teatralidade construída na relação atriz e espectador.
Assim, cenário e trilha deixam o lugar de primeiridade para se transmutar em quase um tecido, uma pele que envolverá os três solos que sucederão. Em nenhum deles, essa epiderme vai ofuscar, concorrer ou até se sobrepor. Ao contrário, vai criar uma transição poética, etérea e fluída para que os lampejos das tragédias se tornem clarão quando necessário ou breu em sua completa ausência de humanidade, fazendo com que a plateia respire em sobressaltos de acordo com a regência das três atrizes - Letícia, Miwa Yanagizawa e Denise Del Vechhio.
Assim, quando Letícia levanta-se para assumir Antígona já estamos apiedados, quase de mãos dadas com o drama a ser narrada pela atriz de potente recurso vocal. O corpo de Letícia, um tanto curvado como quem carrega o peso de enfrentar o Estado, indica que a direção de Guilherme Leme Garcia será construída nesse jogo de movimentos contidos e explosão de sentidos construídos na partitura vocal e facial. Num furor narrativo, Antígona emerge com a força dos insurgentes, dos que têm pouco tempo para agir, dos que se sacrificam em torno de princípios. Letícia, Guilherme e Caio de Andrade (dramaturgo) traçam as linhas de força da tragédia, expõem miudezas da personagem e proporcionam uma abertura pungente com uma sequência de vocalizes interpretados ao vivo e sobrepostos em gravação que ficarão impressas na memória. Daqueles momentos em que, mesmo agora quando tudo é lembrança, sobreviveram à efemeridade.
É após esse êxtase, ou melhor essa catarse, que Miwa Yanagizawa entra em cena, senta-se em posição quase de meditação e, com o adorno do desenho de luz de Tomás Ribas, flutua como Electra. É impossível tirar o olho do jorro narrativo, gestual e vocal. Quase que hipnotizados seguimos respirando com essa atriz, que sempre que vem a Brasília está inserida num projeto de qualidade impactante. A imagem da Electra flutuante é belíssima e tem o seu ponto focal no rosto, no qual Miwa constrói o caminho de uma das mais cruéis das tragédias. Em fúria, vemos Electra voar numa construção visceral da personagem que deseja minuto a minuto matar a própria mãe. Há um novo impacto sobre a plateia. Talvez, porque Electra, com texto de Francisco Carlos, seja uma tragédia que põe os laços de sangue em constante xeque, tema atualíssimo no século 21.
A essa altura, sabemos que Medeia, com texto de Heiner Muller, vai finalizar o espetáculo e a personagem será vivida por uma intérprete que é uma das atrizes mais entregues ao ofício teatral de sua geração. Denise Del Vecchio entra silenciosamente em cena. Espera-se, então, o ápice da curva dramática, quando ela e Guilherme magistralmente viram o jogo. Um videoarte de duas crianças cria um distanciamento inicial e a atriz surge, como uma muralha, com voz gravíssima, a narrar o seu ponto de vista sobre os fatos que abateram a sua vida e vão conduzir ao assassinato das crianças.  Como quase um poema brecthiano, doce e violento, ficamos diante da narrativa épica que é construída por uma atriz e maestrina, que no conduz a uma recepção ativa sobre as difíceis decisões de Medeia. Somos capazes de até mapear as contradições da personagem num trabalho que arremata os três solos com genialidade.
Trágica.3 chega ao fim, mas sem antes falarmos da delicadeza em que se tornou a direção de Guilherme Leme Garcia. O que ele constrói em cena é um exercício sobre como fazer arte em cima de uma matriz artística inegável, base da formação teatral e humana do Ocidente. A participação de Fernando Alves Pinto e Marcelo H dizem muito sobre essa sensibilidade. São performers que interagem, tecem e dinamizam uma montagem de caráter universal, que atualiza as tragédias e nos fazem sentirmos pertencentes ao legado grego.
   Em cartaz no CCBB Brasília de 31 de out a 30 de nov
sexta 21h/ sábado 19h e 21h/ domingo 20h







sábado, 22 de março de 2014

O couro come gostoso em Gonzagão, a lenda



Sérgio Maggio

Luiz Gonzaga dizia que para fazer um forró da gota era preciso levantar a poeira, bater coxa e arrastar o pé do chão. O diretor João Falcão transforma essa máxima no jogo central de Gonzagão: a lenda, musical em cartaz na Caixa Cultural Brasília, de sexta a domingo, até 30 de março. Não demora o tempo de uma canção para que o espectador se entregue ao remelexo e lance-se de forma intensa e imaginativa nesse forrobodó que se acende vigoroso no palco, numa quebra instantânea dessa quarta parede.  

Numa estrutura de musical-show, Gonzagão mergulha na espetacularização do repertório consagrado do Rei do Baião num incessante vaivém de imagens que se abrem e fecham como se estivessémos diante de uma sanfona, que evoca um Nordeste que João Falcão dialoga com intimidade.
Conjugada a um trabalho monumental da diretora de movimento Duda Maia, a sofisticação das cenas
não cai no risco de estilização desse universo justamente por conta do laço sanguíneo do diretor, que neste trabalho é também dramaturgo. João Falcão acende o Nordeste de Luiz Gonzaga num campo onírico. Parece que estamos diante de um sonho, no qual o contexto de escassez e seca se transmuta para um território adereços e figurinos requintados (o trabalho magistral de Sérgio Marimba), sem perder a pujança da dor. Por vezes, toca no mundo teatral e fantástico de Ariano Suassuna. 
Com uma banda que respira junto com o elenco a cada movimento de cena, Gonzagão segue na chave de que as canções de Luiz Gonzaga, por si só, são autobiográficas. A teatralização desse repertório é a linha mestra da montagem abrindo espaço para a virtuose de intérpretes que cantam, dançam e interpretam as músicas do Rei do Baião como se estivessem em um show incessante. É possível se deliciar tanto com o desempenho do ator Adren Alves (num contraponto andrógino ao mundo masculino e grave do forró de Luiz) quanto da rabeca de Beto Lemos, ambos com o mesmo peso na montagem.
 Ao optar pela verticalização formal, João Falcão abriu mão das sutilezas biográficas. Nesse sentido, quem vai ao teatro esperando vasculhar a vida de Gonzaga pode sair um tanto incomodado. A dramaturgia em si não traz detalhes para além do que já se sabe. É confusa também a opção de João Falcão como autor em narrar a montagem ora por um sanfoneiro, ora por uma trupe de teatro, que entra meio perdida e se ilumina, sobretudo, pela presença de Larissa Luz (outrora a divina Laila Garin).  Talvez, por isso, o autor anuncie logo na primeira canção: "Por Deus perdoem os deslizes que certamente virão/ As imprecisões dos fatos/ Os erros de condução/ As relevantes ausências/ No enredo desse baião." Mas, na sequência, o couro come tão gostoso no centro que dá vontade de sair do teatro xaxando. Quer melhor ode à memória de Gonzagão que essa?  
        

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Félix, o soberano



Sérgio Maggio

O personagem Félix, de Amor à Vida, voltou a vestir um terno de bom corte e usar sapatos lustrados. Está fino, mas não como antes, quando maquinava as vilanias eticamente mais questionadas da novela de Walcyr Carrasco. A metamorfose da personagem é, sem dúvida, o maior trunfo do autor que, a menos de quatro semanas para findar a novela, realizou a façanha de criar um tipo gay martirizado por questões na infância.
O Félix de agora consegue encher os olhos de desejo por outro homem, sem necessitar desviar por vergonha alheia. Precisou colocar um shortinho vermelho, flores tropicais no cabelo e rebolar à la Carmen Miranda para realizar o seu banquete antropofágico. Conquistou a sua liberdade sexual à sua  maneira. Fez isso depois de ser arrancado à força do armário em violenta cena realizada num dos momentos cruciais da trama, quando a mulher revelou a todos que o marido gostava de se divertir com homens.
A sequência foi crucial para se entender que o vilão Félix era fruto de uma construção de opressão do pai que o desprezava e o oprimia. O autor deixava claro que o menino cresceu tentando imitar e agradar o pai, mas recebia o desprezo por não ter o padrão masculino que garantisse o orgulho paterno.
Félix, o vilão, foi destronado e jogado em ambiente mais livre sexualmente. Na periferia e na companhia de uma ex-chacrete, pôde tatear a liberdade total. Foi paquerado por um mecânico e experimentou ser quem poderia ser, sem as máscaras da hipocrisia burguesa.
Nesse sentido, Walcyr Carrasco, numa ação brilhantemente pedagógica, mostra que ao experimentar tocar no que tanto o oprimia, os sentimentos de vilania perderam o sentido. A conversão do vilão Félix, portanto, não se trata de uma virada brusca sem pé nem cabeça da trama. Mas numa construção provavelmente pensada em gabinete, na evolução natural da personagem.
Agora, em sintonia com sua energia natural a personagem segue uma conversão cheia de nuances. È sintomático que nesse momento o algoz repressor, o pai, esteja cego, traído e humilhado pelo amor que julgava ser o correto. Caberá a Félix, na melhor linhagem da tragédia grega, ser o herói dessa saga que vai marcar a história da teledramaturgia por criar um personagem gay tão soberano.